Mapeamento

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38º44'56.5"N 9º07'41.6"W

Morro do Parque da Bela Vista

No mapa em cima, às riscas, estão as zonas de extração de areia
“Nos arredores de Lisboa, por exemplo, os barros basálticos dão campos limpos e abertos destinados à cultura do cereal; os calcários secundários, charnecas abandonadas ao mato e pasto; os calcários terciários cobrem-se de olivedo; as baixas argilosas, de hortas regadas; o pinhal reveste as colinas de arenito improdutivo. No horizonte da cidade, duas montanhas que se vêem uma à outra encerram a escala destas combinações: Sintra, envolta em névoas e afogada de arvoredos frondosos, rica de águas e de sombras musgosas, é uma recorrência do Norte; a Arrábida, nos campos de calcário, no soberbo matagal mediterrâneo, na serenidade das águas onde a serra se despenha quase a pique, um fragmento de Riviera isolado à beira do Atlântico.” (Orlando Ribeiro, citado na epígrafe)

A região de Lisboa situa-se num local privilegiado pela Natureza e a sua história tem muito a ver com a do seu passado geológico.Em primeiro lugar, a sua situação geográfica actual (latitude cerca de 39°N) fá-la pertencer à faixa de clima temperado húmido do Hemisfério Norte.
Se pensarmos que, há cerca de 470 milhões de anos, o nosso território estava próximo do Pólo Sul, que por volta de 300 milhões de anos atrás estava em plena faixa equatorial e que foi graças à rotação e à deslocação para Norte da placa Euroasiática que o clima passou progressivamente de tropical húmido a temperado, bem podemos agradecer à “dança” das placas tectónicas termos hoje excepcionais condições climáticas que, aliás, o homem pré- histórico português já apreciava devidamente, como o provam as muitas estações arqueológicas identificadas à volta de Lisboa.
A evolução geológica desta região, nomeadamente através de falhas e outros movimentos tectónicos, permitiu a instalação do Rio Tejo e do seu estuário no actual local, o qual constituiu sempre rica fonte de alimento, pois o peixe e os mariscos nunca faltaram àqueles que habitavam as suas margens.
Os solos férteis dos arredores de Lisboa foram, desde há muito, agricultados e os produtos das suas hortas, pomares, searas e matas, abasteceram a nossa capital por muitos séculos, bem como as naus que partiam para o além-mar. Não esqueçamos que, por entre os solos mais férteis do país, se encontram os da vasta área basáltica que cobre parte de Lisboa e seus arredores, hoje “plantada” de prédios e estradas que deviam ter respeitado aquela enorme riqueza natural, pois os produtos alimentares que importamos atingem já os 80%.
Na Pré-História, a abundância de sílex nos calcários cretácicos de Lisboa levou, certamente, à fixação de populações para quem esse material era indispensável à fabricação de armas e de outros instrumentos.
O substracto rochoso de Lisboa tem sido aproveitado, desde há séculos, pelo Homem para a construção da cidade: os empedrados de calcários dos passeios, os paralelepípedos de basalto de várias ruas, as cantarias de lioz em tantas casas, palácios e igrejas e, ainda, embora de menor valia, mas não menos úteis, os calcários, em especial os do chamado Banco Real, os arenitos, as areias e as argilas miocénicas com múltiplas utilizações, incluindo a produção de cerâmica, mas também na construção das casas e das muralhas da Cidade.
Graças às pedreiras, barreiros e areeiros onde se exploravam estes materiais, foi possível estudar com detalhe a geologia de Lisboa.
A exploração de todos estes recursos minerais foi-se fazendo, ao longo dos séculos, sempre na periferia urbana da cidade, a qual, como se foi expandindo, empurrou essas pedreiras, areeiros e barreiros cada vez para mais longe, acabando por eliminá-los.
Nos meados dos séc.XX, por exemplo, laboravam para a construção civil diversos grandes areeiros em zonas de antigas quintas dos então arredores de Lisboa: Chelas, Lumiar, Telheiras, Aeroporto e outros.
Foi, também, graças a essa actividade que se constituiu uma excelente colecção de vertebrados miocénicos, pois os técnicos dos Serviços Geológicos passavam periodicamente por esses locais e pagavam aos operários para guardarem aqueles fósseis, à medida que o desmonte avançava.
Por último, o recurso em água subterrânea terá chegado, inicialmente, para abastecer os primeiros habitantes através de linhas de água, poços e algumas nascentes naturais (Alfama, Bica) mas, com o crescimento demográfico, passou a ser insuficiente obrigando, já no séc.XVIII, a ir buscá-la aos arredores (Belas) através do célebre aqueduto das Águas Livres. Saliente-se que nos finais do séc.XIX, Carlos Ribeiro e Nery Delgado, geólogos fundadores da Comissão Geológica do Reino, contribuíram valiosamente para o reforço do abastecimento de água a Lisboa.

Cem milhões de anos da História de Lisboa, Miguel Magalhães Ramalho (uma edição do Museu Geológico, 2010)